segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Prova do Tempo

Fazem alguns anos que iniciei o caminho dessa busca, que tornou-se um encontro, o qual  podemos chamar de Yoga. Antes de "formalmente" envolver-me com o conjunto de práticas de origem Indiana, tive algumas experiências com leituras e práticas dentro do Budismo (Zen) e Taoísmo, respectivamente. Isso deve ter começado por volta dos meus dez anos de idade...

Embora educado no que chamamos de "Colégio de Padres" no sul do país, seguidamente questionava as orientações Cristãs-Católicas. Jesus parecia um personagem fascinante, assim como São Francisco de Assis e tantos outros. Mas o "link" com a instituição em pauta sempre chocava com minhas aspirações em relação a uma via espiritual segura a percorrer.

Em casa, meus pais eram bastante liberais - minha mãe uma cristã moderada e meu pai, tendo passado a infância em seminários (segundo ele próprio) "medievais", achava o conceito de religião "um absurdo" devido aos dogmas impostos,em contrapartida referindo-se a uma vasta gama de pensadores e filósofos contemporâneos.

Acredito que os primeiros textos que me chamaram atenção foram "koans" Zen-Budistas que eram entregues pelo nosso Mestre de Karate, um respeitável senhor Japonês que insistia nas sessões de meditação a serem feitas antes e depois da prática "física" do Karate-Do. Embora parecessem desprovidos de um sentido óbvio a primeira leitura, esses textos provocavam uma certa expansão de valores internos que mais tarde compreendi como vitais no processo do descondicionamento das ditas zonas de conforto.

O Tao começou a chamar a atenção devido a influência de um de meus ídolos (e de tantos outros!) na época - Bruce Lee. Em seus escritos ele falava do "caminho",assim cheguei ao Tao-Te-Ching, um livro seminal sobre o assunto escrito pelo grande Lao Tse. Logo em seguida conheci um outro professor Japonês que recém havia se mudado para minha cidade, ele ministrava aulas de Tai Chi Chuan das 6 as 7 da manhã, o que passei a fazer regularmente antes de ir a escola (que iniciava as 7:30). A fluidez e sutileza dessa prática foram muito vitais para meu desenvolvimento.

Paralelamente, aos 13 anos,comecei a tomar aulas de bateria com um ótimo professor com quem sigo em contato até hoje. Com ele aprendi sobre o ritmo e sua aplicação na vida, a estabelecer cadências, tempos e criar acentuações. A coordenação exigida era um desafio a parte, complementando minhas outras descobertas.

O Yoga da Índia veio ao meu encontro quando,aos vinte anos, numa viagem entre Viena e Salzburgo (Áustria) dentro de uma cabine no trem,conheci um sujeito que havia passado quinze anos com um Guru na Índia, tornando-se monge intinerante após esse treinamento. Ele me concedeu as primeiras instruções formais em meditação (Dhyana), assim como recomendações gerais de hábitos condizentes com a mesma.

Esse último encontro desencadeou um "efeito mola" para com meus próximos destinos relacionados.

Na sequência, em busca de maiores esclarecimentos, vi o livro "Meditação e Concentração",de um certo Swami Sivananda, numa livraria em São Paulo. Essa leitura provocou em mim a mais pura sensação de "não-limites" para a experiência corpo-mente-espírito. Pouco depois, de volta a Europa, comecei a praticar Hatha Yoga no Sivananda Yoga Vedanta Centre. Os Asanas e Pranayama proporcionaram um aprofundamento da prática meditativa, assim como graus de vitalidade e disposição até então pouco explorados. Tornei-me vegetariano nessa época, o que muito facilitou a "digestão" (no mais amplo sentido) de todos esses ensinamentos.

Três anos depois, vivendo na França, conheci meu Guru Sri Hanuman, que consagraria o meu vínculo perene entre Música e Yoga, através da Tabla (percussão) e do Naad Yoga. Com ele comecei o estudo e prática do Tantra, especialmente integrando as vivências cotidianas ao plano "sagrado". Graças a esse contato, pude compreender a não separatividade ou interdependência do percurso até então.

Havendo na época desenvolvido um certo grau de estafa com a vida de músico profissional, decidi pausar esta em prol de um mergulho naquilo que meu coração dizia ser mais importante. Detalhe: a Música em si nunca parou, apenas transformou-se em outras expressões.

Mas assim cheguei a tornar-me professor de Yoga, lecionando e praticando de forma ininterrupta durante os dezesseis anos a seguir. Pude viver na Índia, encontrar grandes Mestres, e também ter contato com músicos fabulosos no percurso.

Voltei ao Brasil no início da década 2000,quando situações conspiraram para fundar um Centro de Yoga, estando a frente deste durante dez anos nas mais variadas atividades.

Nesse período, voltei a estabelecer vínculos musicais em tempo parcial, com novas amizades assim como resgatando velhas parcerias. Tal movimento viria a catalizar decisões futuras nesse mesmo campo.

De quatro ou cinco anos para cá, eventos internos levaram-me a decidir optar por uma vida mais voltada ao exercício da música em tempo integral, com o Yoga servindo de suporte energético a isso.
Deixando o Centro de Yoga e uma vida semi-monástica, tive a oportunidade de consolidar uma relação pessoal profunda com alguém que compartilha os mesmos valores os quais tanto prezo.

Parece irônico e é sem dúvida chato falar assim, mas desde esses últimos anos, tenho tido uma certa dificuldade em lidar com o chamado "Mundo do Yoga"e sua fábrica de ícones mediatizados...com a plasticidade a qual várias pessoas "encarnam" sua nova "persona namaste" em escala ascendente.

Delicado ver indivíduos que consomem álcool, drogas e carnes falando de "saúde alto astral" e "não-violência"...Ou filósofos "vedânticos" que afirmam "nada é preciso fazer", pois afinal "já somos", enquanto também podem orgulharem-se de frases prontas em sânscrito com "efeito moral"...

A tentação de exercer influência sobre alunos e obter uma "fatia do mercado" é muito grande. A ansiedade termina sendo contagiante, levando os aprendizes a reproduzirem os mesmo métodos de seus mentores,com esses muitas vezes publicamente execrados pelos últimos.

A noção crua de "meu aluno","meu professor" e "minha aula" pode ser um grande equívoco seminal segundo o Yoga. Quem são, de fato, ambos? A quem mesmo pertencem?

No ofício do music business que enxergo de perto, o jogo das aparências é mais escancarado, inclusive encorajado, afinal o artista representa uma imagem ou produto a ser comercializado.

Mas cada um segue suas aspirações segundo as ferramentas conscienciais disponíveis.

Nesse panorama ainda busco momentos para uma reflexão, não-virtual, sobre o sentido das
escolhas e o desenvolvimento das mesmas. Sobre como uma busca pode ser legítima, sincera; apesar das armadilhas e ilusões que nos circundam.

É incômodo pronunciar-se sobre qualquer tema hoje em dia, especialmente em tom crítico.
Mas penso sim, que está faltando um pouco mais de "chão" pra muitos que buscam um caminho de verdade. E aqueles que acreditam ter encontrado "seu" caminho, precisam saber que não é o único e tampouco o melhor.

Não me sinto apto ao ponto de colocar a minha visão acima das outras, mas percebo que algo está
soando fora do tom, que as plataformas virtuais permitem a ascensão meteórica de arquétipos egóticos ainda em formação, no inglês "half baked potatos"... Pois bem,esse não cozimento ignora a necessidade de um processo digestivo elaborado.

Em meio ao emaranhado de cabeças que se batem na feira, vozes lúcidas ainda são audíveis, embora provoquem menos sensação ou evoquem menos promessas.

De novo,alguns dos seres mais notáveis que conheci são pessoas que não chamam a menor atenção sobre si mesmas. Mas um olhar, um sorriso ou uma palavra apenas revelam sua magnitude.

Na Índia, Ásia e África essas pessoas seguem sendo reverenciadas como Sábios ou Gurus.
Em nosso país, eles também estão presentes, só que muito provavelmente fora da internet e dos
"círculos" de experts no assunto.

Talvez estejamos todos precisando dar uma volta na mata, no campo,no litoral aberto,
visitar um povoado pequeno do interior,subir uma montanha.
Conversar com aqueles que possuem uma vida em dia
consigo mesmos, escutar os pássaros e cair na lama!

Em seguida, voltar para casa e se for o caso, abrir qualquer escritura:
Bhagavad Gita, Yoga Sutra, Yoga Vashishta, 
Bíblia, Corão, Torah, Tao Te Ching
e refletir, nessa conexão visceral do Ser com seu "Mundo".

Meditar na relação direta com a Vida e sua essência.

Tenho feito esse singelo exercício abaixo, para exorcizar meus próprios fantasmas imaginários,
adquiridos ao longo do breve caminho descrito nesse texto:

"...Criar o Tempo,
Voltar no Tempo,
Projetar ao Tempo
Deixar-se o Tempo.
Provar em Tempo ..."

Om Tat Sat
Gopala









quinta-feira, 17 de julho de 2014

Evolução Transformadora

Nada poderia existir sem Transformação, que denota a natureza transiente de todos os fenômenos nesse universo.

Em literatura Védica, essa designação encontra mais de uma palavra, devido à sutileza das inter-relações entre o sujeito e os objetos da percepção cognitiva, assim como na realização dos vários níveis de relação consigo mesmo - tais como os complexos da mente, ego e Ser (manas, chitta, buddhi, ahamkara e atma).

Dentro do Vedanta, Parinama significa literalmente um estado de cambio, “transformando-se em”; encontrado no contexto de uma causa material no qual a transformação representa uma mudança a partir da mesma fonte, como por exemplo a manteiga a partir do leite.

Igualmente, a palavra Vikaara abrange múltiplos aspectos.

A escritura Srimad Bhagavatam nos apresenta o conceito de Sarva Vikaara Koshah
como um “reservatório” de todos os tipos de mudanças.

Dentre eles: Vikaara-Vit (o conhecimento da mente perturbada); Vikaara Atmakam (o transformar de um tipo de pensamento ou sentimento em outro); Saattvika Vikaara (transformações de natureza pura ou sattwa-guna) e Ananda Vikaara (transformação em bem-aventurança transcedental).

Mas o fluxo ininterrupto deste processo pode ser compreendido como summum-toto
das muitas etapas no caminho do reconhecimento de estados psíquicos mutantes, seguido
pelo desejo de estabilização interna, meta preliminar em Yoga.

Para um principiante, não faz nenhum sentido conceber estados transcedentais ou graus de Samadhi sem antes perceber a própria agitação da mente e seus agregados sensoriais.

Esta constatação encontra-se implícita no famoso sutra de Patanjali “Yogas Chitta Vritti Nirodhah”. Os Vrittis ou estados mentais variantes apresentam-se como “ondas” na superfície
do campo mental (Chitta), requerendo um gradual apaziguamento de sua intensidade para que o estado de Nirodhah (suspensão) possa ser experimentado.

Previamente à Nirodhah, veem-se os seguintes estados de modificação mental:

Kshipta; Vikshipta; Mudha e Ekagrata.

Mudha corresponde à opacidade ou inércia mental.
Kshipta é o estado completamente distraído ou disperso da mente.
Vikshipta representa o migrar de ambos prévios estados através de um movimento direcionado para despertar e agregar energias mentais estagnadas ou dispersas.
Ekagrata é o foco estável em um único ponto.

Assim vislumbra-se o processo de transformação mental dentro do Raja Yoga.

No campo do Hatha Yoga, gosto muito da leitura moderna sobre o tema de Swami Vishnu-Devananda, um dos grandes pioneiros dessa tradição no Ocidente.
Abaixo, reproduzo um fragmento do artigo “Prana e Eletricidade”, prefácio de seu comentário*
do Hatha Yoga Pradipika:

“O impulso eletrônico em nosso corpo é o prana. O prana vem ao sistema nervoso quando é armazenado pelos condensadores e transformado pelos transformadores. Existem cinco tipos básicos de prana: prana, apana, udana, samana e vyana, assim como pranas menores; a diferença entre os pranas menores e maiores é a voltagem. Mesmo em aparelhos eletrônicos, alguns precisam de alta voltagem e assim existem diferentes tipos de transformadores. No corpo nós chamamos estes transformadores de chakras. Vários nervos vem e vão através dos chakras. Eles não são físicos, mas astrais.

No corpo físico, os lugares onde estes nervos se reúnem na medula espinhal são chamados plexos. Eles são um tipo de cruzamento como uma central telefônica. Os plexos correspondem aos chakras. Este é o lugar onde a energia é armazenada como um condensador, alterada como um transformador e obstruída por um resistor. Todas estas coisas acontecem na mesma área.

Na maioria das pessoas, os transformadores nos chakras superiores não estão completamente abertos; talvez para estudantes avançados eles estejam parcialmente abertos. Ou se há uma tremenda quantidade de impureza, eles agem como resistores. Esta variação nos resistores é automaticamente controlada por seus pensamentos bem como sua dieta. Tudo é controlado pelo pensamento. De acordo com a natureza de seu pensamento, suas impurezas vão aumentar ou diminuir. Para cada um destes três aparelhos em seu sistema: condensadores, transformadores, resistores, todos são controlados por sua mente.

Dessa forma, yoguis vão diretamente à mente para mudar tal padrão. De acordo com a natureza do padrão de seu pensamento, a voltagem aumentará ou reduzirá. Se a voltagem aumentar, então a energia fluirá para um chakra superior. Se você reduzir a voltagem (produzindo pensamentos mais densos de ordem sensual ou sexual), então a energia circulará apenas nos chakras inferiores, porque a voltagem não é suficiente para se elevar aos chakras superiores.

Lembre-se que nem o pensamento e nem o prana estão no corpo físico. Eles estão no corpo astral e de acordo com a natureza de seu pensamento, o prana fluirá no corpo físico. Quando seus pensamentos são muito densos, o prana ou elétrons que fluem para o corpo físico serão reduzidos, já que há muita resistência. Além disso, um nervo físico não pode suportar um poderoso pensamento, pois ocorrerá uma redução do prana até determinada extensão. O sistema nervoso que é impuro não pode transmitir altas voltagens. Algumas vezes, um repentino choque mental pode mesmo cortar este fluxo de prana. Outras vezes, esta corrente é lentamente reduzida a certa extensão que faz com que você pareça um cadáver vivo, em estado de coma.

O propósito último do Hatha Yoga é libertar-se das baixas voltagens e mover-se para uma voltagem mais elevada!”

* Direitos reservados pelo Sivananda Yoga Vedanta Centres

Voltando as definições de Vikaara (transformação), particularmente Ananda Vikaara ou transformação em bem-aventurança, no Bhagavad Gita encontra-se um importante shloka (IV:24), recitado antes das refeições em muitos Ashrams na Índia:

Om Brahmarpanam Brahma Havir Brahmagnau Brahmana Hutam
Brahmaiva Tena Gantavyam Brahma Karma Samadhina

“Toda a oferenda é Brahman (o Absoluto); a oblação (ghee) é Brahman; o fogo sacrificial é Brahman; aquele que oferece também é Brahman.
De fato, Brahman é alcançado por quem reside em Brahman

Essa linda preçe incluí os processos intenção (sankalpa), o processamento da oferenda no fogo interno digestivo (agni) e sua respectiva transformação em consciência espiritual. A sacralização dos muitos atos de nosso cotidiano é característico da cultura védica.

O cultivar de um estado vigilante e apreciativo daquilo que ocorre dentro e ao nosso redor permite que a imensa miríade de pensamentos, fenômenos e (re)ações tome um sentido transformador mais profundo.

Talvez haja uma demasiada ênfase nos jargões de “sucesso”, “conquista”, “beleza”, “poder” etc em nossas mídias e (sub)consciente coletivo. Muita energia e sofreguidão são colocadas nessa busca ilusória sem que qualquer alicerce realista esteja antes fundamentado. Obviamente, o grau da aspiração automaticamente qualifica o tipo de aspirante. Ideais elevados geralmente não acontecem em massa, mas podem ser colocados à disposição da mesma.

Se existe uma “evolução”, esta será sempre antecedida por uma dita transformação individual. O quanto esse processo nos é aprazível não muda nem alivia a necessidade de passarmos por ele. Esperar que outros mudem para beneficiar nossas preferências constitui um equívoco comum. Idem para o olhar excessivamente crítico e sua procura por aderentes imediatos.

O tempo ocorre para todos, mas em distintos graus. Podemos ter nosso ritmo, mas não temos como aplicá-lo ao próximo. A aceitação da poliritmia social é portanto crucial na compreensão de nossos próprios lugares e andamentos.

Zonas de conforto funcionam como gigantes bolhas de aprisionamento que afetam áreas físico-psico-emocionais. O apego a qualquer uma delas causa dependência a fatores externos, circunstâncias e pessoas.

Um transformar coletivo apenas acontece quando cada indíviduo procura fazer a sua parte,
olhando no espelho translúcido-multidimensional da vida, a qual escorre e transcorre, nesse instante.

Om Tat Sat
Gopala

Texto na íntegra do artigo publicado na edição de Inverno da revista Yoga Journal, com o título "Evolução em Profundidade" na seção da matéria "Transformação" coordenada por Greice Costa.


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sri Hanuman no Brasil - Yoga do Som Tour 2014

17 a 30 de Abril
Após 4 anos de espera, teremos o privilégio de receber, novamente no Brasil, o Músico e Yogi Sri Hanuman (Índia-França) para uma série de concertos, retiros e oficinas. Um dos raros professores de Naad Yoga (Yoga do Som), Sri Hanuman é também um prolífico palestrante nas mais importantes áreas da Filosofia Indiana, tais como Yoga, Tantra e Vedanta. Na música, sua inspiração traz ao público belíssimas composições baseadas na Música Clássica da Índia; compostas para violão clássico, assim como para vocais acompanhado pela tabla (percussão), bansuri (flauta) e harmônio.
A tônica de suas oficinas de Naad Yoga prima pela sintonia energética da voz em relação aos vários modos melódicos da Música Indiana – Ragas. Ao longo das sessões, é trabalhado um estado meditativo e relaxante que permite aos participantes assimilar complexas combinações de swaras (notas musicais) e shrutis (micro-tons); bem como Mantras (fórmulas sonoras) dentro desse mesmo contexto.
Em conjunto à prática de Naad Yoga, ensinamentos filosóficos também serão transmitidos. Alguns dos tópicos abordados:
-Karma e Destino
-Yoga de Patanjali
-Tantra e Vedanta
-Espiritualidade aplicada a Neurociências
-Lidando com as Emoções
Tanto as oficinas,retiros quanto os concertos são abertos a todos, não requerendo qualquer treinamento ou conhecimento próprio dentro das disciplinas de Yoga e Música, ao mesmo tempo em que elas podem servir de significante abertura para os seguidores de ambas as vias.
As atividades ministradas por Sri Hanuman serão traduzidas e assistidas pelo seu discípulo Gopala, que estuda sob sua orientação há 20 anos.
Calendário da Programação (atualizado):
17-20 de Abril : Retiro "Yoga do Som e Sabedoria"
Centro Montanha Encantada (Garopaba- SC)

21- 22 de Abril: Oficinas de Naad Yoga e Recital
Gandiva Ashram (Curitiba-PR)
souldefiance108@yahoo.com.br  / mahamuni_das@hotmail.com 
(41) 3039.1519

24 de Abril: Recital - Ensinamentos
Academia Competition (São Paulo- SP)
krishna.das.br@gmail.com (11) 99939.7858



25 de Abril: Oficina de Naad Yoga - Recital
Yoga Flow (São Paulo-SP)

www.yogaflow.com.br (11)3849.6857

26 e 27 de Abril: Oficinas de Naad Yoga e Recital
Espaço Companheiros das Artes (Rio de Janeiro-RJ)
surmeditar@gmail.com (21)98728.3095

28 de Abril: Satsanga e Recital
Espaço Shiva (Petrópolis -RJ)
surmeditar@gmail.com  (24)99832.6231

30 de Abril : Ensinamentos e Recital
Centro de Yoga Sivananda (Porto Alegre-RS)

Contato para maiores informações:
(21)98728.3095
Namaste



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Dissolução

Laya ou dissolução, representa a condição impermanente de todas as manifestações no campo mente-sentidos-corpo. Laya Yoga é uma das grandes escolas que tratam desse aspecto internamente, com ênfase nos elementos, sons e deidades sutis dos chakras.

Os chamados ciclos cósmicos - conhecidos na literatura védica como Yuga, Kalpa e Manvantara (em proporções matemáticas incomensuráveis) demonstram que mesmo aquilo que parece eterno tem seu final e portanto uma transição que permite a entrada de novos tempos. Esta é conhecida como Maha-Pralaya ou grande dissolução cósmica. Este conceito encontra-se delineado nos Vedas, assim como nos ensinamentos de Sri Krishna ao longo do Bhagavad Gita.

Atualmente, a humanidade encontra-se regida por um calendário de doze luas e 365 dias, os quais subdividem-se em 24 horas compostas de 60 minutos cada. Segundo a tradição Cristã, vivemos no ano 2013 desde o advento de Jesus Cristo. Em poucas horas estaremos em 2014. Independente de nossas crenças ou convicções, o corpo coletivo humano "civilizado" segue esta medida de tempo, cuja palavra em sânscrito para denominá-lo é Kala.

Em Yoga, dizemos que o ser humano respira aproximadamente 21.600 vezes ao dia. O prana ou alento vital, circula em 72.000 nadis (canais), concentrando-se em três principais (ida, pingala e sushumna) os quais cruzam sete chakras principais e muitos outros secundários ao longo do percurso. Quando estes canais estiverem purificados, a energia primordial se concentrará em sushumna nadi, despertando a Kundalini Shakti no muladhara chakra, através do seu sub-canal interno conhecido como brahmananda. Esta Shakti dinâmica entra em comunhão com Sadashiva ou consciência estática no sahasrara chakra - a morada das mil "pétalas". Eis a consumação do Tantra.

Não há uma medida de tempo prevista para este acontecimento, que permanece um mistério para os praticantes (sadhakas) desde milênios. Alguns dizem que depende da assiduidade em sadhana, outros falam em méritos (punyam) de vidas passadas e ainda alguns dizem que a mera graça do Mestre (Guru-Kripa) pode proporcionar a experiência conhecida como Turya, quando o ser humano transpassa suas percepções ordinárias de vigília, sonho e sono profundo.

Para que uma consciência atemporal aconteça na meditação, é necessário que a mente humana consiga liberar-se de certas inquietações atreladas ao tempo. A maior delas, o medo seminal da morte (mrityu), aumenta a medida em que o ser humano percebe que seus dias biológicos se esvaem.

Abaixo temos o clássico mahamrityunjaya mantra- utilizado desde os primórdios pelos yogis na sublimação desse processo, assim como para proteção e cura de doenças:

ॐ त्र्यम्बकं यजामहे सुगन्धिं पुष्टिवर्धनम् ।
उर्वारुकमिव बन्धनान् मृत्योर्मुक्षीय मामृतात् ।।

oṁ tryambakaṁ yajāmahe sugandhiṁ puṣṭi-vardhanam ǀ
urvārukam-iva bandhanān mṛtyormukṣīya māmṛtāt ǁ

Om. Nós adoramos Shiva, o Senhor dos três olhos que é fragrante ,que alimenta e cuida de todos os seres. Da mesma forma que o pepino maduro, com a devida intervenção, torna-se liberto da planta que o aprisiona; possa Ele libertar-nos da morte para a imortalidade.


Mesmo com conhecimento das escrituras e uma compreensão inteligível do processo bilateral da vida e morte, as pessoas temem perder seu querido envólucro corpóreo, que inclui todas as funções vitais, tomadas como provas de viver. Mais além, teme-se que a mais preciosa faculdade - a mente suprasensorial - deixe de existir, justificando por si mesma a identidade do "Eu"(aham).

O estado de Laya indica a provável dissolução direta desse "eu"como tal.
Por mais terrível que possa soar, é a própria morte enquanto vida.
Paralelamente, é também o renascer de uma nova consciência, desprovida de medo e sofrimento.

Embora esta dissolução pareça inviável para a nossa grande maioria, seu exercício pode ser feito nas pequenas coisas do dia a dia - como em breves desapegos, ao amenizar quadros dramáticos e especialmente ao reservar um "tempo fora do tempo" na prática da meditação. Também acontece quando dedicamos integralmente as tarefas no campo da ação (Karma Yoga) sem o sentimento de propriedade ou autoria.

Quanto mais agitações, expectativas, cobranças, revoltas, vinganças, promessas, ganâncias e afins - mais longe estaremos, conjuntamente falando, daquele estado de Paz que constitui a nossa essência interior.

As virtudes positivamente opostas já nos são conhecidas, que possamos então exercitá-las dentro de nossas melhores possibilidades. Que avidya ou ignorância possa dissolver-se, dentro de cada um, em seu devido tempo.

Om Tat Sat
Gopala


Monges Tibetanos elaborando o Hevajra Mandala - dissoluto após sua compleição







terça-feira, 19 de novembro de 2013

Yoga, Música e Som

Yoga, dentre muitas interpretações livres sobre o sentido da prática, é uma forma de sintonia fina entre aquilo que é percebido pelos sentidos refinados e sua expressão fluida no campo dos pensamentos e ações. Similarmente a música, em seu mais elevado aspecto, segue esta mesma relação.

Segundo Sufi Inayat Khan: “ A palavra Música ou Sangeet, tem três aspectos: O primeiro deles é a linguagem, o segundo a execução e o terceiro é o movimento. Os Hindus jamais consideraram a ciência do movimento (ou dança) como algo separado da música. Eles sempre combinaram os três aspectos daquilo que nomeavam como “música”.

Esse conceito é bem exemplificado através do Natya Shastra, um extenso tratado sobre as artes na Índia.

Pessoalmente falando, o aprofundamento de minha descoberta musical veio através da prática do Yoga. Digamos que até então vinha estudando e escutando sonoridades a partir de um bias estético. A meditação, particularmente, sugere a exploração de algo como um silêncio interno. Porém, se analisarmos melhor, mesmo este estado supostamente silencioso é uma vibração sonora, constante, a qual nos leva a um estado fora dos parâmetros racionais da mente, no quesito tempo/espaço.

Sob a orientação de meu Guru Sri Hanuman, comecei a descobrir a conexão entre os sons ahat e anahat (externos e internos) na prática do Nada Yoga (Yoga do som). Paralelamente, estudava a percussão (tabla) e também os ragas tradicionais da música clássica indiana. O diferencial desse estudo estava no objetivo e caráter contemplativo da abordagem musical.

Geralmente o músico estuda algo para tornar-se proficiente, hábil na execução de sua arte. Uma grande parcela deste processo envolve emoções densas como a avidez, competição, inveja e medo de “fracasso” – as quais podemos atribuir aos mecanismos do nosso ego inferior (ahamkara).

Esse conteúdo emocional caracteriza as combinações de notas utilizadas, assim como o prana veiculado pela execução musical.
Em outro paralelo com Yoga, poderíamos dizer que se alguém for praticar uma seqüência de asanas puramente pela perfeição estética, com
sua mente focada na apreciação de outrem, os benefícios sutis já não estariam presentes na mesma.

A compreensão das muitas dimensões dos gunas (sattwa, rajas e tamas) certamente ajuda  muito no processo de imersão na essência musical através do Yoga. Não obstante, um conjunto de hábitos saudáveis deveria acompanhar o praticante nessa descoberta.

Identificar as vibrações agressivas ou depressivas, emitidas por certos gêneros musicais equivale a sentir onde se encontra o tama-guna. Igualmente, perceber a paixão e excitação nos indica rajo-guna.

Yoga começa com o cultivo de shanta-bhava (sentimento de paz) nas mais variadas formas. Os sons que trazem luminosidade, disposição serena e amor cósmico universal (vishwa-prema) são, portanto, as manifestações de sattwa-guna.

Essa triagem acontece em diferentes graus para cada um. Em algumas pessoas, o apego a determinadas sensações pode ser intenso, por isso sendo mais difícil substituir tais hábitos auditivos por outros menos densos.

Novamente, assim como para desentoxicar o corpo físico/energético recorremos a ocasionais jejums e shat-kriyas em Hatha Yoga, acompanhados por uma subseqüente alimentação balanceada e exercícios, podemos realizar algo semelhante com a música.

As mídias modernas (rádio, TV, internet) são fontes de intenso bombardeio sensorial. Ao “renunciarmos” ainda que parcialmente a estas opções, colocamos em ação nosso sentido de livre arbítrio e construção de um sadhana coerente com nossos objetivos.

A música clássica indiana (hindustani e carnática) é, sem dúvida, aquilo que mais ressoa com as origens védicas e tântricas do Yoga. Mas sabendo que para uma mente ocidental essa “dieta” possa soar demasiadamente mono-tônica, encontramos belíssimas sonoridades dentro da música clássica, barroca e folclórica ocidentais. Idem para expressões indígenas ou shamânicas. encontradas nas mais diversas culturas.

Um ponto comum é a utilização de instrumentos acústicos, suaves e cantos que remetem à conexão do ser humano com a natureza e ao divino absoluto
(Brahman).

Voltando ao Nada Yoga como prática sistematizada de todas essas idéias e conceitos, temos a aplicação conjunta de exercícios de pranayama, vocalização de ragas (modos melódicos) assim como a aplicação de mantras dentro dos mesmos. Em seguida há meditação (dhyana) nos aspectos sutis sonoros a serem explorados internamente.

Nesse sadhana, sentimos uma purificação dos canais internos (nadis) e centros energéticos (chakras), trazendo a mente a um estado elevado e cristalino.

Dentre as fontes de estudo, temos a referência de livros como “The Garland of Letters” de Sir John Woodroffe. Nesta obra, há uma excelente exposição dos conceitos de Nada, Bindu e Spanda que constituem a essência do Tantra, a partir do qual  origina-se o Nada Yoga.

Segundo o autor:
“Tudo é composto de forças materiais em movimento. Mesmo aquilo que parece estável esta se movimentando. A matéria em si é apenas uma forma relativamente estável da energia cósmica. Porque tudo está em movimento, este mundo é chamado Jagrat ou aquilo que se move. Tudo que não for o imóvel Nispanda-Brahman segue um movimento.
Este mundo é percebido como som,toque e sensação;forma e cor;paladar e odor. Este é o efeito dos órgãos sensoriais (indriyas) e da mente (manas) os quais também se encontram em movimento,sendo finalmente compostos pelos mesmos tanmatras que compõem os objetos da mente. E todo esse movimento é acompanhado pelo som.”

Este principio sonoro apresenta-se simultaneamente imanifesto  assim como manifesto.

“Nada é som, é a vontade de Brahman.
Havia um Sat-Sankalpa.
Uma vibração ou Spandana surgiu.
Veio a vibração de OM. Isso é Nada.
Nada é Shiva-Shakti.
A união e relação mútua de Shiva com Shakti é Nada.
Nada é ação.
Nada significa som, que não é o som grosseiro captado pelo ouvido.
Nada é o aspecto mais sutil de Shabda.
Nada se desenvolve em Bindu.
Nada é o primeiro estágio emanatório na produção do Mantra.
O segundo se chama Bindu.
Nada e Bindu existem em todos os Bija-Mantras.
Nada é aquele aspecto da Shakti que evolui em Bindu.”
Swami Sivananda

A primeira vibração ou som primordial a partir da qual emana toda criação chama-se Nada.É o primeiro estágio que cria ou emana a projeção do universo. Nada é a emanação do absoluto não manifesto.
É o Omkara ou Shabda Brahman.
É também o místico som de concentração interno utilizado pelos Yoguis.
Bindu em sânscrito significa ponto, centro ou gota.
Porém, num sentido mais amplo, Bindu não deve ser tomado como sendo apenas uma gota ou força vital.
É aquele ponto sutil e inconcebível, verdadeira raiz de toda manifestação. É o ponto a partir do qual é projetado o universo fenomenal dos nomes e formas. Deste Bindu é emanada toda a criação, sendo ele a própria fonte vital da manifestação.

Em Nada Yoga acredita-se que o som ocorre em quatro dimensões - quatro níveis de som que se relacionam à freqüência, sutileza e à força.

1.Som grosseiro - Vaikhari
2. Som mental - Madhyama
3. Som visualizado - Pashyanti
4. Som transcendental – Para

Estes quatro estágios representam a evolução do som a partir da emissão verbal até a sua realização no plano transcendental.

Com estas observações, conclui-se que há muito mais por detrás de cada som. Palavras e sons emitidos verbalmente (vaikhari) são portanto uma densificação de sonoridades ocorridas em um plano mental (madhyama) a partir de uma visualização abstrata (pashyanti).

Aum ou Om ocorre em Para-Nada, sendo essencialmente uma sonoridade que transcende qualquer conceito ou linguagem. Yogis podem acessar esta vibração a partir de certos níveis de Samadhi, para então traduzi-la em uma vocalização tangível aos seus discípulos,por conseguinte constituindo os moksha mantras encontrados  na tradição do Yoga.

Em relação à música, é dito que os primeiros hinos védicos eram compostos por três notas no Rig Veda, posteriormente expandidos em cinco notas no Sama Veda até chegar a completa escala universal de sete notas – saptak .

O belíssimo sistema de ragas segue esta progressão desde seus primórdios,
podendo ser considerados como modos melódicos criados a partir de uma identificação com a natureza e as muitas matizes do sentimento humano
(raga).O ritmo ou tala (tandava + lasya) está intimamente ligado ao raga desde a acepção do mesmo, sendo estudado por todos os músicos na Índia.

O caráter sagrado desta abordagem dispensa aquilo que poderíamos chamar de “sentimento mundano” ou vulgar encontrado em tantas outras formas de expressão musical, que possuem seu devido lugar e circunstâncias.

Para um yogi, cada pensamento gera sons, palavras e (re)ações
que afetam o ambiente no qual vivemos.

Nessa linha proposta, podemos todos refletir, escolher e desenvolver nossas potencialidades musicais em forma de nada yoga- sadhana  coerente.

Om Tat Sat
Gopala

Artigo publicado na edição 40 dos "Cadernos de Yoga"

G.S. Sachdev - Músico /  Yogi