domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sri Hanuman no Brasil - Yoga do Som Tour 2014

17 a 30 de Abril
Após 4 anos de espera, teremos o privilégio de receber, novamente no Brasil, o Músico e Yogi Sri Hanuman (Índia-França) para uma série de concertos, retiros e oficinas. Um dos raros professores de Naad Yoga (Yoga do Som), Sri Hanuman é também um prolífico palestrante nas mais importantes áreas da Filosofia Indiana, tais como Yoga, Tantra e Vedanta. Na música, sua inspiração traz ao público belíssimas composições baseadas na Música Clássica da Índia; compostas para violão clássico, assim como para vocais acompanhado pela tabla (percussão), bansuri (flauta) e harmônio.
A tônica de suas oficinas de Naad Yoga prima pela sintonia energética da voz em relação aos vários modos melódicos da Música Indiana – Ragas. Ao longo das sessões, é trabalhado um estado meditativo e relaxante que permite aos participantes assimilar complexas combinações de swaras (notas musicais) e shrutis (micro-tons); bem como Mantras (fórmulas sonoras) dentro desse mesmo contexto.
Em conjunto à prática de Naad Yoga, ensinamentos filosóficos também serão transmitidos. Alguns dos tópicos abordados:
-Karma e Destino
-Yoga de Patanjali
-Tantra e Vedanta
-Espiritualidade aplicada a Neurociências
-Lidando com as Emoções
Tanto as oficinas,retiros quanto os concertos são abertos a todos, não requerendo qualquer treinamento ou conhecimento próprio dentro das disciplinas de Yoga e Música, ao mesmo tempo em que elas podem servir de significante abertura para os seguidores de ambas as vias.
As atividades ministradas por Sri Hanuman serão traduzidas e assistidas pelo seu discípulo Gopala, que estuda sob sua orientação há 20 anos.
Calendário da Programação (atualizado):
17-20 de Abril : Retiro "Yoga do Som e Sabedoria"
Centro Montanha Encantada (Garopaba- SC)

21- 22 de Abril: Oficinas de Naad Yoga e Recital
Gandiva Ashram (Curitiba-PR)
souldefiance108@yahoo.com.br  / mahamuni_das@hotmail.com 
(41) 3039.1519

24 de Abril: Recital - Ensinamentos
Academia Competition (São Paulo- SP)
krishna.das.br@gmail.com (11) 99939.7858



25 de Abril: Oficina de Naad Yoga - Recital
Yoga Flow (São Paulo-SP)

www.yogaflow.com.br (11)3849.6857

26 e 27 de Abril: Oficinas de Naad Yoga e Recital
Espaço Companheiros das Artes (Rio de Janeiro-RJ)
surmeditar@gmail.com (21)98728.3095

28 de Abril: Satsanga e Recital
Espaço Shiva (Petrópolis -RJ)
surmeditar@gmail.com  (24)99832.6231

30 de Abril : Ensinamentos e Recital
Centro de Yoga Sivananda (Porto Alegre-RS)

Contato para maiores informações:
(21)98728.3095
Namaste



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Dissolução

Laya ou dissolução, representa a condição impermanente de todas as manifestações no campo mente-sentidos-corpo. Laya Yoga é uma das grandes escolas que tratam desse aspecto internamente, com ênfase nos elementos, sons e deidades sutis dos chakras.

Os chamados ciclos cósmicos - conhecidos na literatura védica como Yuga, Kalpa e Manvantara (em proporções matemáticas incomensuráveis) demonstram que mesmo aquilo que parece eterno tem seu final e portanto uma transição que permite a entrada de novos tempos. Esta é conhecida como Maha-Pralaya ou grande dissolução cósmica. Este conceito encontra-se delineado nos Vedas, assim como nos ensinamentos de Sri Krishna ao longo do Bhagavad Gita.

Atualmente, a humanidade encontra-se regida por um calendário de doze luas e 365 dias, os quais subdividem-se em 24 horas compostas de 60 minutos cada. Segundo a tradição Cristã, vivemos no ano 2013 desde o advento de Jesus Cristo. Em poucas horas estaremos em 2014. Independente de nossas crenças ou convicções, o corpo coletivo humano "civilizado" segue esta medida de tempo, cuja palavra em sânscrito para denominá-lo é Kala.

Em Yoga, dizemos que o ser humano respira aproximadamente 21.600 vezes ao dia. O prana ou alento vital, circula em 72.000 nadis (canais), concentrando-se em três principais (ida, pingala e sushumna) os quais cruzam sete chakras principais e muitos outros secundários ao longo do percurso. Quando estes canais estiverem purificados, a energia primordial se concentrará em sushumna nadi, despertando a Kundalini Shakti no muladhara chakra, através do seu sub-canal interno conhecido como brahmananda. Esta Shakti dinâmica entra em comunhão com Sadashiva ou consciência estática no sahasrara chakra - a morada das mil "pétalas". Eis a consumação do Tantra.

Não há uma medida de tempo prevista para este acontecimento, que permanece um mistério para os praticantes (sadhakas) desde milênios. Alguns dizem que depende da assiduidade em sadhana, outros falam em méritos (punyam) de vidas passadas e ainda alguns dizem que a mera graça do Mestre (Guru-Kripa) pode proporcionar a experiência conhecida como Turya, quando o ser humano transpassa suas percepções ordinárias de vigília, sonho e sono profundo.

Para que uma consciência atemporal aconteça na meditação, é necessário que a mente humana consiga liberar-se de certas inquietações atreladas ao tempo. A maior delas, o medo seminal da morte (mrityu), aumenta a medida em que o ser humano percebe que seus dias biológicos se esvaem.

Abaixo temos o clássico mahamrityunjaya mantra- utilizado desde os primórdios pelos yogis na sublimação desse processo, assim como para proteção e cura de doenças:

ॐ त्र्यम्बकं यजामहे सुगन्धिं पुष्टिवर्धनम् ।
उर्वारुकमिव बन्धनान् मृत्योर्मुक्षीय मामृतात् ।।

oṁ tryambakaṁ yajāmahe sugandhiṁ puṣṭi-vardhanam ǀ
urvārukam-iva bandhanān mṛtyormukṣīya māmṛtāt ǁ

Om. Nós adoramos Shiva, o Senhor dos três olhos que é fragrante ,que alimenta e cuida de todos os seres. Da mesma forma que o pepino maduro, com a devida intervenção, torna-se liberto da planta que o aprisiona; possa Ele libertar-nos da morte para a imortalidade.


Mesmo com conhecimento das escrituras e uma compreensão inteligível do processo bilateral da vida e morte, as pessoas temem perder seu querido envólucro corpóreo, que inclui todas as funções vitais, tomadas como provas de viver. Mais além, teme-se que a mais preciosa faculdade - a mente suprasensorial - deixe de existir, justificando por si mesma a identidade do "Eu"(aham).

O estado de Laya indica a provável dissolução direta desse "eu"como tal.
Por mais terrível que possa soar, é a própria morte enquanto vida.
Paralelamente, é também o renascer de uma nova consciência, desprovida de medo e sofrimento.

Embora esta dissolução pareça inviável para a nossa grande maioria, seu exercício pode ser feito nas pequenas coisas do dia a dia - como em breves desapegos, ao amenizar quadros dramáticos e especialmente ao reservar um "tempo fora do tempo" na prática da meditação. Também acontece quando dedicamos integralmente as tarefas no campo da ação (Karma Yoga) sem o sentimento de propriedade ou autoria.

Quanto mais agitações, expectativas, cobranças, revoltas, vinganças, promessas, ganâncias e afins - mais longe estaremos, conjuntamente falando, daquele estado de Paz que constitui a nossa essência interior.

As virtudes positivamente opostas já nos são conhecidas, que possamos então exercitá-las dentro de nossas melhores possibilidades. Que avidya ou ignorância possa dissolver-se, dentro de cada um, em seu devido tempo.

Om Tat Sat
Gopala


Monges Tibetanos elaborando o Hevajra Mandala - dissoluto após sua compleição







terça-feira, 19 de novembro de 2013

Yoga, Música e Som

Yoga, dentre muitas interpretações livres sobre o sentido da prática, é uma forma de sintonia fina entre aquilo que é percebido pelos sentidos refinados e sua expressão fluida no campo dos pensamentos e ações. Similarmente a música, em seu mais elevado aspecto, segue esta mesma relação.

Segundo Sufi Inayat Khan: “ A palavra Música ou Sangeet, tem três aspectos: O primeiro deles é a linguagem, o segundo a execução e o terceiro é o movimento. Os Hindus jamais consideraram a ciência do movimento (ou dança) como algo separado da música. Eles sempre combinaram os três aspectos daquilo que nomeavam como “música”.

Esse conceito é bem exemplificado através do Natya Shastra, um extenso tratado sobre as artes na Índia.

Pessoalmente falando, o aprofundamento de minha descoberta musical veio através da prática do Yoga. Digamos que até então vinha estudando e escutando sonoridades a partir de um bias estético. A meditação, particularmente, sugere a exploração de algo como um silêncio interno. Porém, se analisarmos melhor, mesmo este estado supostamente silencioso é uma vibração sonora, constante, a qual nos leva a um estado fora dos parâmetros racionais da mente, no quesito tempo/espaço.

Sob a orientação de meu Guru Sri Hanuman, comecei a descobrir a conexão entre os sons ahat e anahat (externos e internos) na prática do Nada Yoga (Yoga do som). Paralelamente, estudava a percussão (tabla) e também os ragas tradicionais da música clássica indiana. O diferencial desse estudo estava no objetivo e caráter contemplativo da abordagem musical.

Geralmente o músico estuda algo para tornar-se proficiente, hábil na execução de sua arte. Uma grande parcela deste processo envolve emoções densas como a avidez, competição, inveja e medo de “fracasso” – as quais podemos atribuir aos mecanismos do nosso ego inferior (ahamkara).

Esse conteúdo emocional caracteriza as combinações de notas utilizadas, assim como o prana veiculado pela execução musical.
Em outro paralelo com Yoga, poderíamos dizer que se alguém for praticar uma seqüência de asanas puramente pela perfeição estética, com
sua mente focada na apreciação de outrem, os benefícios sutis já não estariam presentes na mesma.

A compreensão das muitas dimensões dos gunas (sattwa, rajas e tamas) certamente ajuda  muito no processo de imersão na essência musical através do Yoga. Não obstante, um conjunto de hábitos saudáveis deveria acompanhar o praticante nessa descoberta.

Identificar as vibrações agressivas ou depressivas, emitidas por certos gêneros musicais equivale a sentir onde se encontra o tama-guna. Igualmente, perceber a paixão e excitação nos indica rajo-guna.

Yoga começa com o cultivo de shanta-bhava (sentimento de paz) nas mais variadas formas. Os sons que trazem luminosidade, disposição serena e amor cósmico universal (vishwa-prema) são, portanto, as manifestações de sattwa-guna.

Essa triagem acontece em diferentes graus para cada um. Em algumas pessoas, o apego a determinadas sensações pode ser intenso, por isso sendo mais difícil substituir tais hábitos auditivos por outros menos densos.

Novamente, assim como para desentoxicar o corpo físico/energético recorremos a ocasionais jejums e shat-kriyas em Hatha Yoga, acompanhados por uma subseqüente alimentação balanceada e exercícios, podemos realizar algo semelhante com a música.

As mídias modernas (rádio, TV, internet) são fontes de intenso bombardeio sensorial. Ao “renunciarmos” ainda que parcialmente a estas opções, colocamos em ação nosso sentido de livre arbítrio e construção de um sadhana coerente com nossos objetivos.

A música clássica indiana (hindustani e carnática) é, sem dúvida, aquilo que mais ressoa com as origens védicas e tântricas do Yoga. Mas sabendo que para uma mente ocidental essa “dieta” possa soar demasiadamente mono-tônica, encontramos belíssimas sonoridades dentro da música clássica, barroca e folclórica ocidentais. Idem para expressões indígenas ou shamânicas. encontradas nas mais diversas culturas.

Um ponto comum é a utilização de instrumentos acústicos, suaves e cantos que remetem à conexão do ser humano com a natureza e ao divino absoluto
(Brahman).

Voltando ao Nada Yoga como prática sistematizada de todas essas idéias e conceitos, temos a aplicação conjunta de exercícios de pranayama, vocalização de ragas (modos melódicos) assim como a aplicação de mantras dentro dos mesmos. Em seguida há meditação (dhyana) nos aspectos sutis sonoros a serem explorados internamente.

Nesse sadhana, sentimos uma purificação dos canais internos (nadis) e centros energéticos (chakras), trazendo a mente a um estado elevado e cristalino.

Dentre as fontes de estudo, temos a referência de livros como “The Garland of Letters” de Sir John Woodroffe. Nesta obra, há uma excelente exposição dos conceitos de Nada, Bindu e Spanda que constituem a essência do Tantra, a partir do qual  origina-se o Nada Yoga.

Segundo o autor:
“Tudo é composto de forças materiais em movimento. Mesmo aquilo que parece estável esta se movimentando. A matéria em si é apenas uma forma relativamente estável da energia cósmica. Porque tudo está em movimento, este mundo é chamado Jagrat ou aquilo que se move. Tudo que não for o imóvel Nispanda-Brahman segue um movimento.
Este mundo é percebido como som,toque e sensação;forma e cor;paladar e odor. Este é o efeito dos órgãos sensoriais (indriyas) e da mente (manas) os quais também se encontram em movimento,sendo finalmente compostos pelos mesmos tanmatras que compõem os objetos da mente. E todo esse movimento é acompanhado pelo som.”

Este principio sonoro apresenta-se simultaneamente imanifesto  assim como manifesto.

“Nada é som, é a vontade de Brahman.
Havia um Sat-Sankalpa.
Uma vibração ou Spandana surgiu.
Veio a vibração de OM. Isso é Nada.
Nada é Shiva-Shakti.
A união e relação mútua de Shiva com Shakti é Nada.
Nada é ação.
Nada significa som, que não é o som grosseiro captado pelo ouvido.
Nada é o aspecto mais sutil de Shabda.
Nada se desenvolve em Bindu.
Nada é o primeiro estágio emanatório na produção do Mantra.
O segundo se chama Bindu.
Nada e Bindu existem em todos os Bija-Mantras.
Nada é aquele aspecto da Shakti que evolui em Bindu.”
Swami Sivananda

A primeira vibração ou som primordial a partir da qual emana toda criação chama-se Nada.É o primeiro estágio que cria ou emana a projeção do universo. Nada é a emanação do absoluto não manifesto.
É o Omkara ou Shabda Brahman.
É também o místico som de concentração interno utilizado pelos Yoguis.
Bindu em sânscrito significa ponto, centro ou gota.
Porém, num sentido mais amplo, Bindu não deve ser tomado como sendo apenas uma gota ou força vital.
É aquele ponto sutil e inconcebível, verdadeira raiz de toda manifestação. É o ponto a partir do qual é projetado o universo fenomenal dos nomes e formas. Deste Bindu é emanada toda a criação, sendo ele a própria fonte vital da manifestação.

Em Nada Yoga acredita-se que o som ocorre em quatro dimensões - quatro níveis de som que se relacionam à freqüência, sutileza e à força.

1.Som grosseiro - Vaikhari
2. Som mental - Madhyama
3. Som visualizado - Pashyanti
4. Som transcendental – Para

Estes quatro estágios representam a evolução do som a partir da emissão verbal até a sua realização no plano transcendental.

Com estas observações, conclui-se que há muito mais por detrás de cada som. Palavras e sons emitidos verbalmente (vaikhari) são portanto uma densificação de sonoridades ocorridas em um plano mental (madhyama) a partir de uma visualização abstrata (pashyanti).

Aum ou Om ocorre em Para-Nada, sendo essencialmente uma sonoridade que transcende qualquer conceito ou linguagem. Yogis podem acessar esta vibração a partir de certos níveis de Samadhi, para então traduzi-la em uma vocalização tangível aos seus discípulos,por conseguinte constituindo os moksha mantras encontrados  na tradição do Yoga.

Em relação à música, é dito que os primeiros hinos védicos eram compostos por três notas no Rig Veda, posteriormente expandidos em cinco notas no Sama Veda até chegar a completa escala universal de sete notas – saptak .

O belíssimo sistema de ragas segue esta progressão desde seus primórdios,
podendo ser considerados como modos melódicos criados a partir de uma identificação com a natureza e as muitas matizes do sentimento humano
(raga).O ritmo ou tala (tandava + lasya) está intimamente ligado ao raga desde a acepção do mesmo, sendo estudado por todos os músicos na Índia.

O caráter sagrado desta abordagem dispensa aquilo que poderíamos chamar de “sentimento mundano” ou vulgar encontrado em tantas outras formas de expressão musical, que possuem seu devido lugar e circunstâncias.

Para um yogi, cada pensamento gera sons, palavras e (re)ações
que afetam o ambiente no qual vivemos.

Nessa linha proposta, podemos todos refletir, escolher e desenvolver nossas potencialidades musicais em forma de nada yoga- sadhana  coerente.

Om Tat Sat
Gopala

Artigo publicado na edição 40 dos "Cadernos de Yoga"

G.S. Sachdev - Músico /  Yogi




sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Trimurti

Três anos se passaram...desde que comecei a rabiscar idéias nesse blog.

Ao longo desse tempo, não saberia dizer se têm sido uma construção ou uma demolição de valores,
hoje diria ser mais provável a segunda opção. Eis o ciclo do (não) saber...

A conceitualização de qualquer sistema que implica auto-conhecimento como objetivo é uma faca de dois gumes.Cortam-se conceitos externos, mas também cortam-se dedos por ainda não saber manipular habilmente o instrumento que nos foi dado. A receita do bolo só vale quando utilizada com plena fé, devoção e dependência.

Quem não crê ou não quer determinados resultados, melhor inventar sua própria receita, mesmo sob risco de ficar sem o "bolo"no final ...Quero dizer que a partir do momento no qual passamos a acreditar em algo ou alguém externo,é retrucada, na mesma proporção, a pergunta de até que ponto cremos em nossa própria capacidade criativa e analítica.

O estigma da construção equivale a erguer uma imensa muralha contra supostos invasores.
A manutenção acontece para proteger e re-afirmar aquilo que foi construído.
Quando é descoberto que de fato não existem tais invasores, ocorre uma destruição,que
incorre em  subsequente transformação, suave ou drástica - dependendo da intensidade
do processo.

Na antiga Índia, o princípio criador era chamado Brahma, o preservador Vishnu e o destruidor
Shiva. Juntos são aclamados como Trimurti ou tripla deidade.

Esse é o ciclo que acontece em níveis cósmicos, mas também diários ou sazonais - como quando observamos o nascer e morrer de plantas, animais e humanos, as mudanças climáticas e assim por diante. Podemos estar plenamente envolvidos com as agruras e prazeres desta experiência, assim como colocarmo-nos de forma mais desapegada perante os mesmos. Isto representa que seguimos plenamente conscientes de tudo o que ocorre, porém sem tanta identificação entre sujeito-objeto.

A postura interna influencia fatores externos mais do que o contrário. Uma óptica que assume responsabilidade por tudo aquilo que é produzido, recebido e projetado em seu campo de visão, fica menos suscetível a desgastantes embates contra adversários imaginários. Exatamente. A raiz de conflitos e guerras jaz em nossa própria mente...

Protestamos por melhores condições sociais,um direito de todos. Mas cada indivíduo constitui um fragmento deste corpo coletivo. E cada fragmento possui uma consciência inteligente, ativa e inter-dependente. Uma mão não pode bater-se contra a outra sem ferir ambas. Neste ímpeto, caímos no paradigma da "salvação" ou "danação" definitivas.Concomitantemente, percebe-se que a humanidade preza em desempenhar a sua boa parcela de "juízo final" a cada dia. Os mais nefastos juízes encontram-se bem subornados em nossas maquiavélicas tramas psico-emocionais internas.

Na contrapartida, práticas meditativas (também ditas espirituais), tão ou quem sabe mais antigas que as referidas práticas bélicas, pertencem a uma categoria de pessoas que renunciaram  a este tipo de comportamento gregário ou primitivo. Não por sentirem-se superiores, mas por buscarem algo que lhes trouxessem mais sentido a vida,de forma ampla e perene.

Em uma das histórias de um grande mestre Tibetano, é dito que ao voltar a sua caverna, depois de longas peregrinações, bênçãos e iniciações - encontrou cinco terríveis demônios dentro dela. Cada um com uma aparência mais assustadora do que o outro. Perguntou-se: como poderiam tais seres encontrarem-se dentro do seu íntimo recinto, logo ele que havia conquistado tantos méritos? Rogou seus mais poderosos mantras e os cinco demônios ali permaneceram, rindo de seu inútil esforço.

Em um lapso de lucidez, o yogi resolveu sair da caverna por um momento. Percebeu então que aqueles cinco demônios representavam grosseiros aspectos residuais dos pancha maha-bhutas (cinco elementos) ainda vivos ao interior de sua própria mente, externamente representada como a caverna.

Imediatamente o quadro todo evanesceu-se perante seus olhos, trazendo a clareza da experiência e ensinamentos ali contidos.

Parece que Shanti ou Paz só ocorre quando muitas "muralhas" forem demolidas, muitos "invasores" expulsos e outros tantos "demônios" exorcizados. Na verdade este estado de espírito já nos pertence, mas a ilusão de estarmos sempre avassalados por problemas de ordens diversas, nos faz crer que tenhamos de "lutar" pela paz.

A questão aqui é uma tomada de consciência, na qual nossa ação possa de fato gerar benefícios e soluções diretamente positivas.

Meditar significa estar desperto para si, para o mundo. É a conexão que permite um alinhamento com a chamada lei universal ou Dharma.

Om Tat Sat
Gopala




















sábado, 15 de junho de 2013

Postura em Lucidez

Quando enxergamos alguém sentado, supostamente em meditação, dificilmente sabemos o que de fato se passa naquela mente. Mas basta experimentarmos fazer a mesma coisa que rapidamente saberemos
o que se passa em nossa própria mente!

Da mesma forma, um corpo em um asana pode aparentar leveza, mas estar interiormente vivenciando dores e desconforto. Ou seja, muito difícil julgar externamente aquilo que uma aparência denota.

Pessoas que estão ligadas à tão chamada "espiritualidade", muitas vezes forjam um certo ar de serenidade, tornando assim credível aquilo que pretendem oferecer. Um mestre genuíno, por sua vez, esbanja elegância ou sabedoria sem fazer o menor esforço.

Assim e com tantos outros exemplos, verificamos que nossa mente humana possui a incrível capacidade
de assumir posturas dignas de atores profissionais. A mais difícil delas, sem dúvida, é  a pura honestidade - para com os outros e especialmente para consigo mesmo. Ao adotar determinados comportamentos, criamos uma ilusão temporária de conforto e triunfo perante o "mundo".

Mal sabemos que este mundo também nos observa por ângulos os quais imaginamos inacessíveis.
Toda intenção se faz transparecer, seja pelo tom da voz, pela expressão facial, pelo modo de caminhar
ou sentar. A mente literalmente fala por intermédio do corpo.

Dentro do Yoga Sutra de Patanjali, encontramos um extenso catálogo das tendências mentais, desde as mais óbvias até as mais sutis. Por que teria ele insistido tanto nesse assunto, centenas de anos antes das correntes da Psicologia ocidental?

Não poderia haver uma cessação ou estabilização dos vrittis (ondas mentais) sem que estes estivessem devidamente vislumbrados e aceitos em seu aspecto "caótico". A reorganização destes padrões confusos é um trabalho diário para qualquer pessoa auto-consciente, e muito mais ainda no caso do Raja Yogi, que tem como missão destrinchar o campo mental completamente.

Para tanto, encontramos no sutra 1.4:

Vrtti Sarupyam Itaratra

"Quando a mente não está concentrada,aquele que a percebe identifica-se com suas modificações"

Para sair deste estado, o praticante necessita de um foco mental fora dos vrittis.
Estes apresentam-se em cinco variantes (pancatayah) que podem ser dolorosos ou não (klistaklistah).
No sutra 1.6, eles sao descritos como:

Pramana Viparyaya Vikalpa Nidra Smrtayah

" Conhecimento correto, entendimento erroneo, ilusão verbal, sono e memória".

Dentre eles, apenas o conhecimento correto (pramana) é o que nos traz uma experiência desprovida de dor. Todos os outros tendem a deixar-nos a mercê do sofrimento e incompreensão em níveis  individuais / coletivos.

Sutra 1.7
Pratyaksha Anumana Agamah Pramanani

Por melhor que sejam as intenções, uma mente iludida não consegue posicionar-se com clareza perante as mais diversas situações, distinguindo os pontos reais e fictícios envolvidos. A percepção direta (pratyaksa) é portanto a primeira forma de acessar o conhecimento correto, com a ressalva de que os cinco sentidos estejam suficientemente purificados para tanto. A segunda possibilidade - inferência (anumana) está embasada no processo racional. Pode-se chegar ao conhecimento através da lógica ou informações previamente recebidas. A terceira prova chama-se "testemunha competente"(agamah) referindo-se a alguém cujo caráter ou ética sejam impecáveis. Em geral, a única pessoa digna deste título é o Guru. Seja por qualquer uma destas vias, as provas de conhecimento devem chegar a mesma conclusão.

Escrevi esta breve análise dos sutras acima baseado no comentário de Swami Vishnu Devananda.

Há um mês atrás, tive a oportunidade de passar duas semanas em retiro no Ashram onde ele residiu muitos anos, no Canadá. Ao entrar em sua casa para meditar, senti uma energia incrivelmente poderosa, capaz de acalmar muitas de minhas agitações mentais. Como um processo de reconhecimento, compreendi que sua energia mental e espiritual seguem especialmente vivas nesse local.

Isso deve-se à forca de uma plena realização em Yoga, capaz de silenciosamente abrir os olhos internos de quem busca, como eu, uma lucidez maior na prática e na vida. Embora seja um vislumbre limitado,
pois rapidamente escorregamos em velhos condicionamentos, foi vital como prova do ensinamento contido nas antigas escrituras e sua indelével aplicação nos dias de hoje.

Om Tat Sat
Gopala

Swami Vishnu Devananda



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Percepção e Discernimento

Nada mais blasé do que sentir-se "conhecedor das causas" e "juiz supremo" perante uma platéia,
impactada por notícias sensacionalistas que visam mexer com a opinião pública.

Assim soam muitas das opiniões de alguns professores de Yoga - ditos referenciais - hoje em dia.
Ao apropriarem-se de uma tradição, ao ponto de formularem comentários personalizados em cima desta, usando-a como instrumento para justificar qualquer banalidade que venha ao seu encontro,sinto que o "bonde da consciência" desce ladeira em alta velocidade, colocando em perigo seus (in)conscientes tripulantes, assim como os mais incautos transeuntes caminho afora ...

Temo que nossa cultura local ainda não consiga lidar com um corpo de ensinamentos tão antigos e multi-autorais como apresentados nas tradições Yoga/Vedanta/Budismo. Todavia precisamos de "ícones-caciques" ou "arlequins" que venham a legitimar aquilo que já está mais do que estabelecido há vários séculos. Essas pessoas, após alguns estudos e viagens, resolvem então tornarem-se "formadores de opiniões", pois apenas seguir um ensinamento é pouco para suas ambições ego-pessoais. Refutando a categoria de Guru (afinal, isso é coisa do passado) tais promotores escrevem livros, ministram formações e consideram-se responsáveis pela disseminação daquilo que "acharam",criando pegajosos círculos diletos que mais se assemelham a "clubinhos", nos quais só será bem-vindo quem rir quando contarem uma piada e assim por diante. As redes sociais constituem seus apogeus mediáticos,apregoando diariamente suas últimas "pérolas".

Não falo de grandes seitas dominadoras, ao contrário, este fenômeno é bem mais caseiro - contendo em si alguns ingredientes seminais das últimas...aliás, uma estarrecedora quantidade de "adeptos" é proveniente desse meio obscuro - o que poderia ser,em algumas instâncias, interpretado como um fenômeno de migração sócio-patológico. Talvez seja uma forma de terapia pós-traumática, mas infelizmente muitos dos próprios protagonistas dessa pantomima procuram apagar qualquer evidência passada de cult-behaviourism...

Seja como for, o fato é  que atualmente pouco se fala em seguir, praticar e amadurecer um ensinamento ao longo de alguns anos para então emitir um real embasamento...As pessoas já desejam respostas rápidas que venham a satisfazer o apetite ávido de suas mentes em plena ebulição. Nesse campo, frases feitas dos Upanishads ou palavras em sânscrito vem a apoiar teses redundantes sobre a "moda atual", como "mandar bem" nos esportes radicais e afins. Debates e discussões se formam sobre a mais pura areia movediça ... Qual necessidade realmente temos disso? Será que o novo praticante está forjando uma personacool para o seu puro auto-deleite? Sendo bem objetivo, parece tão estranho!

Apologia ao questionamento e anarquia ideológica cabem perfeitamente em um contexto politico-social humano. No campo da prática espiritual, porém, os mecanismos são mais sutis, mesmo quando não há uma concordância direta com aquilo que é recebido do preceptor. Ao invés da revolta, um diálogo construtivo é instaurado, até que o aluno venha a compreender o assunto, o que pode levar um tempo considerável, a medida em que purifica seus canais internos (nadis).

Seguidamente o professor pode estar longe da perfeição contida naquilo que professa, portanto a advertência de que o ensinamento é o foco principal no aprendizado. Poucos são os Sat-Gurus (mestres perfeitos) e quão mais raros os estudantes idem. As qualificações (adhikari) reais de um discípulo (shishya) estão praticamente fora de cogitação nos moldes sociais em que vivemos. Por isso há de se considerar a relatividade dessa relação, para não sofrermos com os extremos de uma exigência só vigente nas escrituras (shastras).

Yoga precisa ser considerado a partir de ângulos imperfeitos como um prisma multi-colorido.                      A luz que traz as muitas cores é a única realidade que permite o reconhecimento desse fenômeno.
Nossos pontos de vista individuais são (im)perfeitamente limitados.

Espero por meio destas palavras não estar reproduzindo os exatos padrões aqui assinalados.Infelizmente somos todos sujeitos a erros, necessitando elucidação e tempo até serem processados.O intuito seria de  ficarmos atentos ao efeito "fogo de palha" que paira nessas bandas virtuais. As vezes, parecemos muito mais "ovelhas" do que imaginamos, seguindo ou endossando cegamente algo/alguém que não necessariamente represente nossas convicções pessoais profundas. Terminamos fazendo coro a uma série de baboseiras non-sense ,vindas de pessoas que blindam-se  por detrás de uma  moralidade que como toda que se preze, é sempre perversa - pois esconde um lado frágil, humano demais a ser escancarado em público. Estas são, portanto,sensações imperfeitas que me ocorrem e com todo respeito as compartilho.

Reflexão,análise,serviço abnegado e dedicação silenciosa a uma causa são os alicerces do Vedanta prático.Grandes Mestres exaltados possuem sim, uma estrondosa voz social - provocadora e transformadora. Porém antes de rugir como um Leão, precisamos seguir os passos deste como filhotes, aos poucos adquirindo a força e a sabedoria de um adulto. Desde o início, esse tem sido o caminho deixado como precioso legado a todos nós, pretensos sadhakas ou praticantes em busca de um estado que transcenda a grande ignorância primordial (avidya). Que possamos abrir nossos órgãos de ação/percepção e conhecimento (karma / jñana indriyas) ao longo do caminho, recebendo assim a graça
(kripa) do verdadeiro discernimento -Viveka !

Om Tat Sat
Gopala

Swami Vivekananda

domingo, 6 de janeiro de 2013

Viver em Arte

Embora um dos princípios que movimentem a nossa vida seja a ação,no sentido de agir em prol daquilo que sentimos ou acreditamos, não obstante deparamo-nos com situações onde a atuação (no sentido teatral da palavra) se faz  predominante.

As artes, em geral, constituem um campo fértil para a expressão máxima de todos os sentidos e emoções humanas. Isso faz dos artistas pessoas sensíveis e também sucetíveis as ondas emocionais encontradas em seus meios. Nada mais difícil para um cantor ou dançarina do que ter um baixo quorum de publico,ou pior,um público que não aprecie a sua performance. Sem falar na "fogueira das vaidades" entre colegas,onde a competição aparece como um estímulo embriagante...Tendo vivido anos como baterista nos mais variados contextos (do rock e mpb ao jazz), fiquei surpreso ao encontrar comportamentos similares nas expressões  supostamente "sagradas" da música Indiana.

Um grande cantor e Naad Yogi que tive a oportunidade de acompanhar na tabla - Pandit Mukesh Desai - uma vez disse que toda emoção, mesmo as mais extremas, podem ser utilizadas em prol de uma expressão artistica mais profunda. Para ele, tais grandes músicos com gênios irascíveis são como tantriks que vivenciam a chamada "louca sabedoria"(crazy wisdom), assim desencaixando-se dos padrões "socialmente corretos".

Na esfera do Naad Yoga, situada em um patamar mais profundo do que a simples "l'art pour l'art", tomamos cuidado com os chamados extremos emocionais, trabalhando conscientemente dentro de um espirito meditativo e pacifico (shanta bhav). Para um expectador de fora,muitos dos exercícios podem parecer chatos ou lentos, devido a sua natureza mântrica. Mas para aqueles que estão dentro, praticando, o efeito é  muito profundo e transformador. Por isso, esta pratica só pode ser proporcionada por alguém que tenha uma abordagem que transcenda a plasticidade estética, musical ou artística. Apenas tomar aulas ou tocar alguma musica Indiana não significa que a pessoa esteja praticando Naad Yoga.

Yoga é um estado de espírito que não pode ser forjado, tampouco fingido.
Grandes yogis podem ser também grandes músicos, mas não necessariamente ao contrário.
Da mesma forma que uma mente concentrada nem sempre acompanha um corpo flexível ou vice-versa,
em um paralelo entre raja e hatha yoga.

Ditas estas observações, também já pude surpreender-me com artistas (conhecidos e nem tanto) que chegam a um nível de tamanha entrega,veracidade e pureza que naturalmente equivale a tudo aquilo que o yogi aspira. Essas pessoas frequentemente transparecem em suas vidas a expressão de suas artes.

Portanto, toda a visão pré-concebida daquilo que experimentamos pelos sentidos deve ser previamente filtrada pela sutil percepção intuitiva, adquirida através da auto-observação e processamento daquilo que chega ao nosso campo de ação/reação.Vejo esta como uma das mais importantes praticas em Yoga, embora muitas das experiências oriundas desse processo sejam notoriamente indigestas ao primeiro impacto, tornando-se elucidantes após algum tempo.

Assim como determinados sons tem o poder de gerar emoções inusitadas, permitimos este constante desarmar dos nossos mecanismos ego-mentais, aproximando-nos da espontaneidade natural que é, sem dúvida, a grande obra-prima do viver.

Om Tat Sat
Gopala

Saraswati Devi